quarta-feira, 9 de março de 2011

ANTONIO CARLOS DAYRELL - ARTIGO

Mea Culpa


Aos heróis que salvam vidas

Antônio Carlos Dayrell

Vivíamos o clima positivo da virada do ano e a República comemorava a posse da primeira mulher na presidência e já éramos surpreendidos com a triste estatística, do número de mortes, em acidentes nas rodovias federais e estaduais, causados pela chuva remansosa.

Era apenas o prenúncio de uma tragédia anunciada, que escolheu o alvorecer dos primeiros dias de 2011, como palco do maior desastre natural do País. A destruição provocada pelas chuvas de verão atingiu a infra-estrutura de várias cidades da região serrana do Rio de Janeiro, matando mais de 900 pessoas e deixando inúmeros desaparecidos. Quase 30.000 estão desabrigados.

A Nação ainda se convalesce na UTI e, no mundo da bola, o futebol anuncia novas contratações, para delírio de alguns torcedores fanáticos. Ao mesmo tempo, a festa da moda desfila para um público seleto, apresentando as novas tendências para a temporada. Esta dualidade, que separa, de um lado, tragédias, e de outro, espetáculos, pode nos tornar menos sensíveis e indiferentes.

Enganam-se aqueles que pensam friamente, para não se envolver, que melhor é esquecer as marcas do passado e seguir em frente. Estes ignoram que muita gente, depois de perder tudo na vida, somente encontra apoio e esperança na solidariedade humana.

Será que podemos nos permitir entrincheirar em nossas casas e escolher viver apenas o lado bom das coisas, enquanto miséria e tragédias estão à nossa volta? Será que teremos que esperar que as soluções sempre venham homologadas pelo poder constituído? Ou será que a solidariedade é um sentimento que aprendemos a compartilhar apenas em situações de risco?

Fato é que não podemos outorgar a ninguém nossa capacidade de agir, rir e chorar… Tudo aquilo que fazemos ou deixamos de fazer, repercute, de alguma forma, no mundo.

Onde estávamos, quando assistimos complacentes à destruição dos ecossistemas, à ocupação irregular e desordenada das margens dos rios e nas encostas das montanhas? Ou quando encontramos lixo amontoado nos bueiros ou bocas de lobo, impedindo o escoamento das águas da chuva?

Você vai me responder que sempre foi assim: quando chegou, a floresta já havia sido derrubada, as margens dos rios e as encostas já estavam habitadas, e que o lixo jogado na rua não era seu. E você, o que fez para reverter a situação?


* Dados oficiais divulgados pela Secretaria de Estado de Saúde e da Defesa Civil do Rio de Janeiro, abrangendo as cidades de Teresópolis, Sumidouro, Petrópolis, Nova Friburgo, São José do Vale do Rio Preto e Bom Jardim, Areal, Santa Maria Madalena, Sapucaia, Paraíba do Sul, São Sebastião do Alto, Três Rios, Cordeiro, Carmo, Macuco, Cantagalo e Cachoeira de Macacu.


http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/02/15/numero-de-mortos-na-tragedia-na-regiao-serrana-do-rio-de-janeiro-passa-de-900.jhtm

© Antônio Carlos Dayrell
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