terça-feira, 19 de abril de 2011

HOMENAGEM DO POETA CÂNDIDO SOUZA AO MEU PAI ZÉ MILANEZ


Zé Milanês: o poeta cidadão*

Poeta Francisco Cândido

Na cantoria de vida e viola,

Em noite de lua e madrugada
O poeta motivado não amola,
Nem entorta o ritmo da toada.


Lá fora o canto da passarada

Que em sinfonia, ninava a noite
Nos porões o estalar de açoite
E o canto afinado da rapaziada:


Vai-se um amor e vem outro

A andorinha só não faz verão
Não quero ser como pau torto
Vem e te dou meu coração!


Só o amor à cultura prevalecia

Havia comunhão entre amigos
E o cantador com maestria,
Louvava Dona Flor e seus maridos.


Cantava a dor e a esperança

No raiar de um novo tempo
Feito de justiça e de bonança,
Não podia ser jogado ao vento.


Idealizava um novo mundo

Onde não houvesse exploração.
A amizade fosse um bem profundo
E em tudo prevalecesse à união.


A saúde, o pão e a educação

Seria direito básico e não favor
Assegurados a toda população
Sem discriminação de religião e cor


Era conhecido como Zé Milanês,

Sindicalista e poeta popular,
Um homem de indiscutível altivez
Só queria aos trabalhadores ajudar.


Tive a honra de conhecê-lo, um dia

Numa noite de animada cantoria
O Pé de Serra se enchia de alegria
Ao som da viola, o povo sorria.


Deixou um grande legado

De coragem, justiça e lealdade.
Deixo aqui o amor poematizado
Por uma questão de fraternidade.

Versejo abraçado a minha terra,

Celebrando os caminhos da vida
Que às vezes a terra seca aterra
Ao lado do sagrado berço da lida.


Seu coração guardava segredos

De vida e viola, gado e gente
Desenrolando, dá mil enredos
De um conto ao descontente.


Sinto prazer em observar e cantar

As belezas raras do Nordeste
Só a zabumba me faz rebolar,
Sendo um valente cabra da peste.


* Poeta e líder sindical, barbaramente assinado, na cidade de Currais Novos (RN), em função de sua luta em defesa dos trabalhadores rurais.