domingo, 24 de abril de 2011

ZENILDO CESAR ! O MENINO PRODÍGIO DA SPVA/RN IN FOCO

Anônimos das letras em terras de Poti
Sem apoio, escritores, poetas e cordelistas desconhecidos tentam viver da venda do próprio talento
Alex Costa // alexcosta.rn@dabr.com.br
Especial para O Poti



"Não resisto. Tomo o leite que todos tomam. Faminto... faminto mamo no seio deste meio hipocritamente materno. Num abraço terno, me debato indefeso, mas estou preso". Versos ásperos e quase audíveis do poeta Zenildo César, de apenas 20 anos, retratam a história do jovem escriba que vive solitário em um pequeno quarto numa rua do centro da cidade de Natal e que sobrevive através do preço das suas poesias. Simples e introvertido, o jovem poeta relatou para a equipe de reportagem de O Poti/Diário de Natal toda a sua história e como trilhou os horizontes da sua vida durante os 20 anos de sua existência.


Aos 20 anos, Zenildo César sai às ruas à noite para, de bar em bar, oferecer seus livros de poesias. Eles são seu 'ganha-pão' diário Foto: Fábio Cortez/DN/D.A Press
"Escrevi-as ao longo dos tempos. Todos esses cadernos comportam os poemas, os sentimentos, as ideias, muitas poesias ainda não publicadas", contou o poeta, apontando para os 10 arquivos repletos de folhas escritas. Nascido em Natal, Zenildo César, como prefere ser chamado, viveu até os dois anos de idade na casa de seus pais biológicos, em uma choupana nazona Norte da capital. Sua mãe não tinha condições de criá-lo e o deu para uma senhora já idosa, dona Maria Araújo dos Santos.

Em meio às muitas dificuldades, o jovem foi criado no bairro de Petrópolis, estudou sem reprovar na escola e sempre se destacou na escrita. "Acho que nasci com uma veia por onde jorra poesia. Tudo o que eu penso gera poemas. Respirar é uma poesia", disse. Aos 15 anos, na flor da adolescência, o jovem Zenildo precisou se afastar da casa que o acolheu em Petrópolis. "Eu queria jogar bola na praia e na época eu estava participando de um grupo de xadrez. Acabava que eu chegava tarde em casa, para a insatisfação da minha mãe Maria", contou, relatando a falta de liberdade. E foi por este motivo que o jovem retornou para o lar biológico. Estranho, complexo, diferente. O ambiente era totalmente diferente do que ele estava habituado.

Zenildo disse que a relação em casa também foi difícil. A tristeza invadiu de tal maneira o coração do adolescente que ele passou por depressão e internamento; uma mágoa cortante. "A saída da minha casa em Petrópolis me abalou muitíssimo. Mas hoje em dia estou melhor. Minha relação com dona Maria voltou a ser a mesma de sempre; afinal, ela sempre foi minha mãe", disse, emocionado. Zenildo afirmou também que a poesia foi o grande remédio para a cura da sua tristeza. Ao longo dos quatro anos após o retorno ao lar de sua mãe biológica, o jovem poeta viveu num clima de tensão. Seus irmãos mais novos envolvidos com atividades ilícitas mostravam que ele poderia ter tido o mesmo destino, não fosse sua saída do bairro Pajuçara.

Desde pequeno que o estímulo à poesia foi presente. "Não sei se foi por sublimação ou osmose. Sempre fui muito sozinho e falava comigo mesmo, fazia repentes, lia bastante. Mas a escrita dessas ideias poéticas começou mesmo aos 14 anos", contou. Sua maior influência foi Castro Alves, o poeta do escravos. Zenildo César não tem uma temática certa. Ora romântico, ora saudosista, a poseia vai mudando ao longo da sua vida. "Parece algo vago, mas acontece que tem muita coisa dentro de mim: visões, sonhos, amores. Juntando tudo isso com o lado social, com o vazio das pessoas e o mundo estranho...". O jovem diz que sua passagem pela Sociedade dos Poetas Vivos e Afins foi o grande patamar para a aquisição de novas experiências na área artística. Recitais e troca de experiências conferiram ainda mais personalidade aos traços da escrita do autor.

"Lá, na Sociedade dos Poetas, é muito proveitoso. Os trabalhos que fazemos, projetos escolares, recitais nas ruas e nos vagões de trens sempre nos ensinam algo novo. Recitar é tudo para mim, pois é o reviver de emoções e fazer sentir emoções. É visível nas pessoas a cada reação, cada gesto, cada olhar", relatou. Zenildo contou algumas experiências que teve ao recitar poesias nas ruas.

Uma das poesias recitadas foi O mundo pisa em si, do livreto Milhões de uns: "O mundo corre sem se importar com quem sofre. Quem cai é pisoteado e para trás deixado. Homens, por homens pisados". A pequena estrofe mexeu com um senhor que estavano trem, que afirmou: "Ninguém pisa em mim, não!" O jovem Zenildo, sem titubear, questionou: "Então, você pisa?". "Era possível ver o choque causado pelo poder da poesia", retratou.

Dificuldades

Para Zenildo, não é fácil vender poesias, pois as pessoas o encaram como um desocupado que só vende aqueles livretos por necessidade, não sabendo os bastidores da sua vida. "Eu faço porque amo e vivo uma vida normal com o que ganho da poesia. Ela é que me alimenta e me faz viver", disse.

A montagem do material produzido é resultado de investimento do próprio artista, que diz ter recebido ajuda de pessoas que se interessavam pela sua arte no princípio. Hoje, o poeta já tem quatro livros publicados: Ai, ai, como é bom amar (2006), Miragens no Oasis (2008), e os dois últimos lançados no ano passado, Aprendiz de inspirações e quedas e Milhões de uns. Este ano, Zenildo ingressou na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) para o curso de Letras. "A academia me ensinará muitas coisas que quero aprender e colocarem prática", relatou. À noite, Zenildo sai às ruas e bares dos bairros de Petrópolis, Rocas, Ribeira e Tirol vendendo os seus livros.

"Para mim isto é um grande sonho que se torna realidade. Parece ilusão, mas é a verdade acontecendo", finalizou. O batalhador poeta, que nunca teve nada fácil em suas mãos, evolui na experiência da vida, com a responsabilidade de passar mensagens escritas, vencendo a rotina da vida.