terça-feira, 11 de outubro de 2011

PAI, FILHO E ESPIRITO DE CONTO DE DIAS CAMPOS.

A DERRAMA.

(Dias Campos)

Capítulo I

- Lembra desse caso? – Perguntou o titular da Seccional, delegado Adalberto, mostrando ao seu fiel escudeiro e amigo, escrivão Santos, um calhamaço empoeirado e amarelado pelos anos, no seu último mês na ativa, antes da aposentadoria compulsória.

- Deixa ver...? Opa, e como poderia esquecer? Foi, talvez, o caso mais curioso que já aconteceu nesta cidade; acho que no Brasil inteiro!

- Que caso foi esse, doutor? – Cleber, estagiário recém-admitido, logo se interessou pela lembrança que, encadernada com muito orgulho, reunia todas as peças de um inquérito policial.

- Este, meu jovem aprendiz, foi, como disse o Santos, o procedimento investigatório mais interessante a que já tive a honra de presidir. Não propriamente pela audácia ou astúcia dos criminosos, nem pela complexidade do delito ou das diligências realizadas; mas, sim, pelas coincidências e semelhanças que pudemos observar com um fato histórico de todos conhecido.

- E qual foi esse fato?

- A derrama. – Por mais que o quintanista se esforçasse, seus trejeitos confessavam que, ou faltara àquela específica aula de história do Brasil, ou, o que era mais provável, dela se esquecera por completo.

- Acho que o nosso futuro delegado, aqui, não faz a menor ideia do que foi a derrama, doutor.

- Tem razão, Santos. Que vergonha, Cleber, justamente um dos fatos mais conhecidos da história do nosso Estado!

- É que, bem, faz tanto tempo que estudei a escravidão... – Essa doeu aos ouvidos dos servidores públicos.

- Cleber, não sei se você conseguiu perceber, mas uma única lágrima, quente e salgada, como requer uma boa lágrima, acaba de verter do meu olho esquerdo. – Santos riu espontâneo. A risada do estagiário, no entanto, carecia dessa naturalidade.

- Sabe o que eu vou fazer?

- Pronto, lá vem chumbo... – Na verdade, todos naquela delegacia admiravam a competência, a disciplina e a honestidade do Dr. Adalberto. E Cleber não era exceção. As brincadeiras, aceitava-as de bom grado.

- A que horas você sai da faculdade, mesmo?

- Dez, dez e meia.

- Ótimo. Assim terá tempo mais que suficiente.

- Para...?

- Você levará este inquérito para casa, e ai de você se alguma coisa acontecer a ele! Posso perder minha aposentadoria e até ir para a cadeia, mas eu juro que te mato.

- Está certo, doutor... – No fundo, Cleber sentiria, como todos os demais, um profundo vazio com a partida do mais dileto dos mentores.

- Bem, como dizia, assim que você chegar em casa, e não me interessa se estará com sono ou com fome, quero que você pesquise sobre a derrama. E pode tirar o cavalinho da chuva que eu não vou dar nenhuma pista sobre o que ela foi ou deixou de ser. Depois, e só depois, você vai ler todas as páginas que compõem esta preciosidade; não só o relatório, ouviu bem?

- Está certo, doutor...

- Pois bem, amanhã eu quero ouvir de sua boca o melhor resumo que você algum dia já sonhou recitar, desses que deixaria a banca examinadora de queixo caído. E olha que eu conheço todos os detalhes destes autos de cor e salteado!

- Mas, doutor!

- E, Cleber...?

- Sim, doutor?

- Presenteie este velho delegado, aqui, com a retrospectiva mais detalhada possível, deixando-me ouvir e reviver o caso mais singular que já tive o prazer de esclarecer. – Dr. Adalberto sabia mesmo como estocar o coração dos seus, por isso, nem que Cleber tivesse uma prova dificílima no dia seguinte conseguiria deixar de atender ao pedido de seu eterno professor.

A tarde correu tranquila; aliás, muito aquém dos costumeiros moldes de um distrito policial, tanto que, para felicidade geral, nenhuma ocorrência que se subsumisse ao tipo hediondo apareceu de supetão. Nem Cleber, com sua notória ânsia por novidades, teve ganas de desejar que policiais militares adentrassem esbaforidos e, quebrando a excepcional pacatez daquelas dezessete horas, trouxessem algemado o autor de um latrocínio. O máximo que puderam presenciar foram duas vítimas de um estelionatário que, malgrado a tez idiótica, reuniram as derradeiras forças do seu dilapidado orgulho e se apresentaram ao escrivão para a lavratura do competente boletim de ocorrência.

- Já passa das dezoito, Cleber. – Avisou Dr. Adalberto, preocupado com o possível atraso.

- Meu Deus, de novo! – E começou a arrumar a mesa em que trabalhava, exigência intransacionável para todo e qualquer estudante que quisesse estagiar junto ao titular. Despedindo-se de afogadilho, ensaiou correr. Antes de vencer a porta, porém, estancou, voltou-se e não se esqueceu de apanhar e mostrar o caderno volumoso ao seu legítimo dono, indicando-lhe que não se esquecia da tarefa de que tão “democraticamente” fora incumbido.

A poucos metros da Seccional, Cleber reduziu a marcha e parou. Não sabia bem por que agia dessa maneira; afinal, estava atrasado. Olhou para o céu. O crepúsculo já se ia apagando, e a noite, límpida, geralista, prometia um contemplar de estrelas. Mas não era esse futuro êxtase que o instava a parar. Algo lhe doía...

O ônibus não tardou a chegar e o trajeto não o surpreendeu. Cleber chegou à faculdade quinze minutos antes do início da primeira aula. Tânia já o esperava e, como sempre, com dois sanduíches.

- Oi amor, tudo bem? – Perguntou o jovem.

- Oi. Pedi com pouca maionese. Espero que goste. – Se chegasse um pouco mais tarde, o jantar teria que esperar até o intervalo.

- O que há com você? Parece diferente? – Por brevíssimo instante, Cleber estremeceu diante da hipótese de ser pai. Não que não se prevenissem... Mas, questionava-se angustiado, será que Tânia esquecera-se algum dia de cumprir à risca a tabelinha?

- Nada, não foi nada. – Não havia dúvida: aquela aflição que sentira tinha, sim, razão de ser.

- Tâ...? A gente já namora há quase quatro anos. E eu te conheço muito bem. O que está pegando? – Quando a melhor aluna da classe tomou coragem para explicar o que a afligia, o sinal soou estentórico. Foi como uma balde de água fria em seu ânimo. Ela voltou a retrair-se; e jogou o sanduíche ao chão. Cleber respeitou-lhe a atitude e nada comentou. No entanto, foi claro em sua afirmação, feita em tom amoroso, mas decidido:

- Assim que tocar o primeiro intervalo, quero que você me diga exatamente o que está acontecendo. Sou teu namorado e você sabe que eu te amo. Você tem que confiar em mim. – Tânia quase chorou. Abraçou-o com força, com ternura. E se foram à aula. Antes, porém, Cleber engoliu os três quartos de hambúrguer que faltavam, pois a fome não o deixaria copiar o gesto impensado.

- O que tem aí nessa sacola? – Perguntou Tânia, um pouco mais tranquila.

- Ah, você nem pode imaginar!

- Se você não me disser...

- Engraçadinha. – E riram, como que retornando à paz de sempre.

- Anda, fala logo.

- O Dr. Adalberto, imagina só, mandou encadernar um inquérito policial. Disse que foi o caso mais... como foi mesmo que ele falou...? ah, sim, o mais singular em que já trabalhou.

- Deve ter sido mesmo, pois pra ele gastar essa grana toda com capa dura e letras douradas... E a que crime se refere?

- Pra dizer a verdade, eu ainda nem abri. Mas o mais interessante é que ele disse que esse caso teve várias coincidências com um fato histórico que aconteceu em nosso Estado e que se chama derrama. Você se lembra dessa tal de derrama, o que ela significa?

- Derrama, derrama...? Se não me engano, não tem alguma coisa a ver com a inconfidência?

- A inconfidência mineira? – A pergunta saía sem pensar.

- Não, meu futuro delegado e esposo, a inconfidência acriana. – A espirituosidade que bem a distinguia, e que já demonstrava o refazimento de sua querida Tânia, só não foi totalmente comemorada porque um dos substantivos utilizados na resposta lembrou-o da reviravolta que sua vida poderia dar, face à provável displicência no seguir a tabelinha. E um arrepio veio contorcer-lhe as tripas!

- Bom, se tem a ver com a inconfidência mineira, fica até mais fácil de achar.

- Por que você não abre e lê a capa do inquérito. Talvez já consiga alguma pista sobre o que foi a derrama ou, pelo menos, onde começar a pesquisar.

- Boa ideia; é pra já. – Nesse instante, adentrava o professor Gontijo, titular de Processo Civil. Como as notas de quase toda a classe pendiam para o vermelho, o silêncio se fez absoluto e imediato.

- Qual é o crime? – A pergunta era feita à baixíssima voz; a resposta, idem.

- Tem vários em concurso. Mas o que encabeça a lista é o artigo 4º, alínea a, da Lei 1.521/51. É a Lei dos Crimes contra a Economia Popular.

- E você se lembra desse tipo? – O tom era mantido.

- Hei! Por mais que eu goste de Penal, é impossível decorar todos os crimes de todas as leis. Muito menos essa, que praticamente só vi em aula.

- Está com o Código aí?

- Claro. – e o folheava apressado. – Ah, é a famosa usura; é a mesma coisa que agiotagem. – Tânia abriu os olhos e emudeceu. Virou-se para a frente e cerrou os lábios.

Cleber sentiu um misto de aflição e alívio. Aquela, porque era óbvio que a reação de sua namorada não decorria do súbito interesse na aula que começava. O motivo do seu sofrimento, no mínimo, relacionava-se com o que acabava de ouvir. E este, porque os choros de não sei quê, as cólicas noturnas, as vigílias extenuantes e os tremendos gastos com fraldas e vacinas voltavam a fazer parte do futuro.

Não se precisaria dizer que se o dono da cátedra cismasse com Tânia e a questionasse a qualquer momento, o máximo que obteria seria um “desculpa, professor, dá pra repetir?” Por isso, nem Cleber ousou puxar outro assunto. Ficaram quietos durante toda a aula. Ela, absorta em seu problema; ele, matutando sobre o que lhe acontecia.

Enfim, o sinal soava, trazendo o primeiro intervalo. Alguns segundos se passaram até que Cleber se virou e arriscou uma investida:

- Você quer sair e conversar lá fora? – Tânia concordou. Aliás, tudo indicava que não assistiriam à aula seguinte.

Decidiram-se pelo pátio, junto à cantina. E por mais que fossem os primeiros a descer, não o encontraram às moscas. Era incrível como uma multidão de estudantes já se aglomerava na busca infrene por comida e por um monte de conversas fiadas.

Como não tinham fome, o melhor a fazer era procurar um banco, e de preferência o mais afastado do burburinho. Lembraram-se de um, o dos amassos, que, por sorte, não estava ocupado. Outros segundos se passaram até que Cleber reiniciasse a conversa.

- Tâ, você quer me contar o que está acontecendo? – Parecia que Tânia nunca ouvira uma inflexão tão terna, tão confiável. E abraçou o namorado como uma garotinha que, machucada pelo tombo, vê no pai o mais puro dos regaços. Na realidade, nem Dona Sônia, com quem sempre pôde contar, nem ela sabia o que se lhe passava. A vergonha pelo ato cometido, impusera à filha o silêncio à mãe.

- Você lembra que andei passando por algumas dificuldades no final do ano passado? – Cleber não teve problemas para relembrar.

- Sim. Você me disse que estava faltando grana pra fazer a matrícula.

- É, estava.

- Pois, então. Depois de alguns dias você veio toda feliz, dizendo que já havia conseguido o dinheiro pra fazer a matrícula. Disse que Dona Sônia tinha recebido um dinheiro extra de um cliente e que... – Cleber notava, pela só feição da namorada, que, se recurso entrara, não fora pelos méritos da futura sogra. Tânia, percebendo-lhe um quê de estupefação, sentiu que deveria corrigir-lhe o pensamento.

- Não é nada disso que você está pensando! – A reação foi tão elucidativa que Cleber só teve tempo para tergiversar.

- E quem foi que disse que eu pensei...? Me desculpe. Você sabe o quanto eu sou louco por você.

- Tudo bem.

- E de onde veio o dinheiro pra matrícula? – Não havia mais motivo, e nem tempo, para esconder a verdade. E ela se abriu:

- De um agiota.

- De um o quê?!

- Foi isso mesmo que você ouviu, de um agiota, de um desgraçado de um agiota. – Tânia cerrou os lábios e, mantendo-se fixa, aguardou um milagre. O jovem quintanista endireitou-se, pôs as mãos na cabeça, agarrou os cabelos e, sem saber o que dizer, implorou a Deus que lhe enviasse uma ideia.

- Se você não sabe o que fazer, imagina eu? – E também se endireitava. Mais alguns segundos passaram até que ele tentou costurar um consolo.

- Calma, vamos pensar. Quanto você deve? – A soma deixou Cleber atordoado.

- Eu achei que você faria essa cara quando soubesse.

- Mas...? E sua mãe? Você falou pra ela sobre isso?

- Não tive coragem. A gente não tinha dinheiro. Eu precisava terminar a faculdade... Achei que desse pra pagar com o que ganho no escritório.

- Com o vultoso salário de estagiária? Tânia, por favor!

- Obrigada pela ajuda.

- Desculpa. É que foi muita ingenuidade tua, amor.

- Agora eu sei. Mas na hora, o desespero...

- Eu sei, amor, eu sei.

- E o que eu faço agora, Cleber? Se eu não pagar até sexta que vem...

- Ele te ameaçou?

- Sim; pelo telefone. Disse que sabia onde eu morava, que conhecia minha mãe, nossa rotina...

- Maldita ralé!

- Cleber, eu tô com muito medo! – Era impossível encontrarem alguma solução com tamanha pressão. Seria preciso que ambos se desligassem, que parassem para pensar.

- Calma. Amanhã eu vou falar com o Dr. Adalberto e explicar tudo. Crime é assunto pra polícia; e criminoso tem que ir pra cadeia. Aliás, o melhor é que você vá comigo até a delegacia. Um inquérito será o primeiro passo.

- E você acha que essa gente tem medo de inquérito policial, de boletim de ocorrência ou de que droga for? Acho que nem se ele conseguir a temporária ou a preventiva aquele agiota vai me deixar em paz.

- Isso é o que nós vamos ver! Esse cara não sabe que se meteu com a pessoa errada. Uma coisa é achacar o “Zé-ninguém”; outra, bem diferente, é mexer com gente do direito, da polícia. – Não que Tânia não soubesse disso... A vitimização, no entanto, obscureceu-lhe completamente o raciocínio.

Tânia não quis voltar às aulas. Subiram no segundo intervalo apenas para pegar o material. E para dizer a verdade, Cleber até que gostou, pois Previdenciário era-lhe intragável.

Nesta noite Tânia não voltaria só para casa. Mesmo morando na extremidade oposta à do seu bairro, Cleber faria questão de acompanhá-la no primeiro táxi que passasse. Pena que naquele horário só a empresa mais cara é que circulava.

Já dentro do veículo, Tânia encostou-se ao namorado e fechou os olhos. Não revia a conversa, não se preocupava com a agiotagem. Apenas sentia o aconchego do único homem em quem realmente confiava, e que escolhera para marido e pai dos seus filhos.

Cleber, no entanto, era só circunspecção. Não via a hora de que o amanhã chegasse, pois o que mais queria era relatar ao mentor e amigo a usura de que sua namorada era objeto. Mas o que faria? Dr. Adalberto iria pessoalmente ao covil do criminoso e o prenderia incontinenti? Isso era bem o que ele desejava. Mas sabia que as coisas não andavam dessa maneira. Tânia figuraria nos autos de um procedimento administrativo, é verdade, mas sem nenhum privilégio. Isso, tinha certeza, estava fora de questão. Pediria a decretação da prisão temporária? E se o juiz entendesse incabível ou desnecessária? E a preventiva? Dessa ele gostava. E se lembrava de um jargão que ouvira assim que ingressou na faculdade de Direito:

- É, da cabeça de juiz, e do bumbum de nenê, você nunca sabe o que vai sair.

Cleber chegou em casa duas horas depois do costumeiro. E mesmo tendo avisado sobre o contratempo, sua mãe permanecia acordada, aguardando-o com o jantar no micro-ondas. Seu pai já beirava o terceiro sono. A fome? Dela se esquecera. Mas assim que foi informado de que o bife à parmegianna do almoço não tinha sido totalmente devorado, o apetite ressurgiu de súbito, e mais voraz do que nunca.

Dona Florinda bem que tentou arrancar-lhe o porquê do atraso, mas, fosse pelo cansaço que o avanço da hora impunha, ou mesmo pela quietude que sente um coração de mãe quando vê seu filho chegar em casa são e salvo, a fiel matrona soube apreender-lhe a retranca, e preferiu não dar ouvidos à inoportuna insistência. De uma coisa, no entanto, o esmero da doce sexagenária não se desincumbiria jamais:

- Filho, vai tomar uma ducha bem quente e relaxante. Isso te ajudará a refletir, antes que o sono venha. – E com um sorriso envergonhado, reflexo da sucumbência ante a vivência materna, Cleber beijou-lhe o rosto, desejando boa noite.

Já deitado, e de banho tomado, o filho único dos Alcântara se pôs a pensar. Não fechou os olhos. Preferiu concentrar-se com a ajuda da eterna parceira, a penumbra originada da réstia que adentrava pela veneziana empenada.

- Será que a Tânia tem razão? Será que essa escória não se intimida com a polícia? – Nos quase três meses em que estagiou junto à Seccional, Cleber nunca viu um só inquérito ser instaurado por usura. Portanto, não tinha a menor ideia de qual seria a reação desse tipo de delinquente.

- Ora, que besteira. Se até os assassinos e os traficantes calam o bico e abaixam as orelhas quando as algemas estalam, não vai ser um agiota qualquer que vai querer cantar de galo, e justamente com a minha namorada. É, é isso mesmo. Quando esse desgraçado vir o camburão encostar na porta de casa, vai dançar miudinho, miudinho.

Cleber ainda conjecturou mais três caminhos que poderiam ser seguidos. O quarto, relegou-o ao esquecimento; a ilicitude permeava-o desde o início. Quando o sono começou a roçar-lhe as pálpebras, uma lembrança veio despertá-lo:

- Droga, o inquérito do Dr. Adalberto! Tenho que ler aquele livro ainda hoje! – O senso de responsabilidade e, sobretudo, a confiança de que era merecedor não lhe permitiam ignorar o pedido com que se comprometeu em atender. E por mais que desejasse e precisasse dormir, essas razões somavam-se à tortura que a Tânia atormentava. Por isso, concluiu com um suspiro, não seria nesta noite que o quase sopor o venceria.

Levantou-se, acendeu a luz, aqueceu-se como pôde – o roupão era um pouco curto, mas as meias de futebol até que compensavam –, foi à escrivaninha e sentou-se. O inquérito encapado estava bem à sua frente. Após um bufo de cansaço, entremeado por um pedido de forças, abriu a primeira página e começou a ler. Lembrou-se, no entanto, de que não sabia o significado de derrama. Foi ao dicionário. As acepções não eram muitas; o que era bom. E para facilitar ainda mais, lembrava-se de que só aquela que dissesse com a história de Minas Gerais é que seria aproveitada.

- Cobrança dos quintos em atraso...? – Isso, por si só, não o ajudou a rememorar aquela fatídica aula de história.

- Parece que terei que apelar para a padroeira dos estudantes desesperados, a Santa Internet.

Em questão de segundos, tudo o que se referia àquele malfadado imposto estava ali, pronto para ser deglutido. O conteúdo técnico, o derredor fático, as personalidades envolvidas... Cleber não pensou duas vezes: imprimiu algumas páginas e sobre elas debruçou-se. No começo foi um pouco difícil domar a falta de concentração. Mas, aos poucos, pôde novamente compreender o que acontecera no século XVIII.

- Bom, primeira parte realizada. Agora, é começar a ler este monstrengo e, é claro, não me esquecer de tentar relacionar com a derrama. Vai se preparando, Cleber, pois a noite é uma longa, longa criança! – Desligou o computador, recostou-se no espaldar, cruzou as pernas sobre a escrivaninha, tomando o cuidado para que o “vento não entrasse”, e abriu o que para muitos não passaria de um alfarrábio.