segunda-feira, 26 de março de 2012

A VOZ POÉTICA DA QUERIDA BARONESA DOS VERDES CANAVIAIS - ESCRITORA LÚCIA HELENA PEREIRA - CEARÁ MIRIM/RN



V I T R I N E

Lúcia Helena Pereira

Achei-me linda nessa vitrine,

Meus 66 anos com rugas e achaques da velhice

Uma cabeça ainda cheia de sonhos,

Alegrias festejadas,

Tristezas choradas.

Alguém me colocou numa vitrine

E eu gostei demais

Nela, os meus cabelos ralos,

Missangas prateando o quase louro que não tenho,

Mas, para esconder o outono chegando forte

Jorginho Barbosa me ajuda a disfarçar.

Nem preciso de disfarce

A idade chega e me olho numa vitrine verde,

Como o vale onde nasci,

Em busca deles, de todos eles

E não os encontro, só na memória festiva.

A minha vitrine está cheia de flores,

De mil pétalas sobrevoando

Resistentes às intempéries

Salvando cores e aromas.

Minha vitrine tem de tudo

Num cristal de luz e sol de final de março,

Onde meus pais vão ressurgindo

De mundos distantes

Embalando-me no berço eterno da saudade.

Quero poder mirar-me sempre numa vitrine de azul opalina

Ver os meus filhos pequeninos

Mas, poder beijar o olhar doce e bom do meu neto,

Filho do meu filho e de uma moça bonita,

Um neto que me deu a mais bela vitrine do mundo:

O seu beijo de amor.

De minha vitrine lilás posso ver os mortos recentes

E chorar sozinha, embriagando-me dos seus valores

Que o mundo não mais terá,

Que o tempo vai eliminar,

Apenas registrando em biografias

E...talvez, livros e livros.

Deus sabe quanto chorei a partida

Daquele sorriso do tamanho do Brasil,

Do Chico cearense gargalhada-talento.

Mas, de todo, nada está perdido,

Restou outro Chico - o poeta que escreveu "Carolina"

E faz a música-poesia!

Na minha vitrine cabe muita gente,

Não tenho nomes, tenho lembranças

Guardadas, protegidas, diletas.

Nomes do alfabeto da afeição,

Batizados em meu coração,

Como aqueles que aprendi a amar.

Vou guardar minha vitrina,

Apagar a luz e fechar a porta,

Sair um pouco,

Dançar ao som de Dodora Cardoso e Marina Elali,

Enquanto dou uma revisada em meu livro,

Sobre Juvenal Antunes,

Que o Acre tanto amou,

Que Ceará-Mirim respeita

E o Rio Grande do Norte precisa lembrar

E enaltecer!

As luzes se apagaram...

Fecho os olhos...

Nenhuma imagem restou...

Apenas sombras...sombras...sombras!