quinta-feira, 5 de abril de 2012

DÚVIDAS E INQUIETAÇÕES RONDAM O ENSINO MÉDIO - ULTIMA ETAPA DA EDUCAÇÃO BÁSICA. SERÁ MESMO TOLICES!


Tolices curriculares (Editorial)

Há dois meses, o Conselho Nacional de Educa- ção (CNE) baixou a Resolução n.º 2/12, definindo as novas Diretrizes Curriculares Nacionais para o ENSINO MÉDIO, que é considerado desvinculado da realidade social e econômica do País, quando comparado aos programas do ensino fundamental e superior. Elaborada com base num extenso parecer aprovado uma semana antes pelo MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO (MEC), a Resolução tem 23 artigos, muitos deles caracterizados por uma retó- rica vazia.
A Resolução, por exemplo, propõe a incorporação, como conteúdo obrigatório do currículo do ENSINO MÉDIO, "do reconhecimento e atendimento da diversidade e diferentes nuances da desigualdade da exclusão na sociedade brasileira". Também recomenda "a valorização dos direitos humanos, mediante temas relativos a gê- nero, raça e etnia, religião, orientação sexual, pessoas com deficiência". E enfatiza a importância de "práticas que contribuam para a igualdade e enfrentamento de todas as formas de preconceito, discriminação e violência" e de "atividades intersetoriais de promoção da saúde física e mental, saúde sexual e saúde reprodutiva e prevenção do uso de drogas".
Não são apenas esses os pará- grafos da Resolução tautológicos ou ininteligíveis. "O trabalho é conceituado na sua perspectiva ontológica de transformação da natureza, como realização inerente ao ser humano e como mediação no processo de produção de sua existência
- diz o § 1.º do inciso VIII do artigo 5.º da Resolução. "A organização curricular deve oferecer tempos e espaços próprios para estudos e atividades que permitam itinerários formativos opcionais diversificados, a fim de melhor responder à heterogeneidade e pluralidade de condições, múltiplos interesses e aspirações dos estudantes", determina o inciso XI do artigo 14. "O projeto político-pedagógico, na sua concepção e implementação, deve considerar os estudantes e professores como sujeitos históricos e de direitos, participantes ativos e protagonistas na sua diversidade e singularidade" -reza o § 2.º do artigo 15 da Resolução. E vai por aí afora.
Além disso, a Resolução do CNE impõe ao currículo do ENSINO MÉDIO quatro áreas de conhecimento e nove matérias obrigatórias, chamadas de "componentes curriculares com especificidades e saberes próprios e sistematizados",subdivididas em doze disciplinas. O novo currículo vai na contramão dos países desenvolvidos, onde o ENSINO MÉDIO não tem um programa mínimo obrigatório. A diversificação é vista naqueles países como forma de adequar melhor o ensino à realidade cultural, econômica e social dos estudantes.
Não são de estranhar, portanto, as críticas que têm sido feitas à Resolução n.º 2/12. "O BRASIL não diversifica e mantém a ideia de que todo mundo tem de fazer a mesma coisa", diz João Batista Araújo e Oliveira, do Instituto Alfa e Beto, depois de classificar o texto da resolução como "erudição boba". "É uma montoeira de matérias. O resultado é que ninguém aprende, só decora.No resto do mundo, há segmentação", afirma o economista Cláudio Moura Castro. "Acredito em soluções mais individualizadas e segmentadas, porque há muitas diferenças", assevera Priscila Cruz,do movimento Todos pela Educação.
Além das altas taxas de evasão, o ENSINO MÉDIO esbarra no despreparo dos alunos - por exemplo, 85% dos estudantes desse ciclo ingressam na 1.ª série da rede pública com um nível de conhecimento equivalente ao da 5.ª série do ensino fundamental. Segundo o MEC, 50,9% dos jovens de 15 a 17 anos não estão matriculados no ENSINO MÉDIO, onde o índice de reprovação é de 13,1%. Dos estudantes que completam as três séries do ciclo,metade obtém média inferior a 4 na prova objetiva do ENEM.
Ao justificar a Resolução n.º 2/12, alguns membros do CNE alegaram que ela foi um"resultado de opções" e que "nem todo mundo pensa a escola do mesmo jeito". O que eles não conseguiram explicar é por que, em vez de definir diretrizes mais objetivas e realistas, optaram por um palavrório tolo e sem sentido, e por medidas inócuas, que só poderão aprofundar a crise do mais problemático dos três níveis de ensino.
A tentativa de reformar o ENSINO MÉDIO mantém seus velhos problemas e acrescenta novos.

fonte:
O ESTADO DE S. PAULO - SP | NOTAS E INFORMAÇÕES
29/03/2012