domingo, 15 de abril de 2012

A VOZ POÉTICA DO CIRO JOSÉ TAVARES - BRASILIA/DF


            A MAIS LONGA DAS ESPERAS
                            Ao Pedro Simões
                                          


            “Sob carvalhos sombreados e escuros, floresciam
            as avencas que exalavam um perfume agradável,
            e debaixo das ribanceiras cheias de musgo
            dos cursos d’água pendiam inumeráveis renques
            de samambaias e tinhorões.”
            John Steinbeck, in A Leste do Éden

            Agora que cruzamos nossas últimas fronteiras
            somos convidados pelos deuses a lavar
            o que restou das noites derramadas
            na insólita matéria que nos cobre.
            Vamos pelas mãos de Tétis que de Peleu gerou Aquiles,
            para sermos batizados,outra vez, no azul profundo do Egeu,
             depois vestir-nos com a sagrada túnica de Nessos.
            Assim, puros e libertos, deitaremos nossos olhos saudosos
            sobre os vales verdes da nossa Tessalônica.
            E sentiremos emergir do ventre da terra morena
            o aroma  inconfundível das romãzeiras esquecidas
            nos quintais das casas que deixaram de existir.
            Agora nebulosas horas da existência atravessadas
            Somos espécies raras de armaduras
            porque a mais longa das esperas ainda não nos derrotou.