terça-feira, 1 de maio de 2012

QUANDO A VEZ É DO MAR - Artigo de Carlos Lúcio Gontijo


Carlos Lúcio Gontijo por Antônio Carlos Dayrell

 Quando a vez é do mar
                   Carlos Lúcio Gontijo
       Não podíamos deixar de registrar o lançamento de nosso 14º livro, o romance “Quando a vez é do mar”, que se deu em Belo Horizonte no dia 27 de abril de 2012, com a presença de grande público, numa comovente homenagem ao nosso trabalho literário, que vem desde 1977, quando lançamos o nosso primeiro livro.

       Incrivelmente, assistimos ao avanço do desapreço pela literatura, tanto pela propagação da cultura do som e da imagem quanto pela inexistência de efetiva política de incentivo à leitura, que se nos apresenta com baixíssimos índices no Brasil, onde sequer chamadas bienais ou feiras de livro conseguem a amplitude desejável, uma vez que concedem espaços privilegiados (muitas vezes remunerados) a gente que não é do ramo e que não passam de figurões bafejados pelos holofotes da mídia ignara e carro chefe da exaltação ao grotesco e desprovido de valor, ao passo que autores independentes permanecem desembolsando recursos próprios até mesmo para a obtenção de prateleira nos pontuais eventos de apresentação de livros.

       Ademais, o que se observa é que a maioria dos verdadeiros leitores não se encontra entre os abastados, mas sim nas camadas remediadas. Os que usam os (des)serviços de transporte público de passageiros sabem muito bem que, geralmente, se houver alguém lendo durante a incômoda viagem, é gente negra, mulata ou parda, que via de regra integra a camada mais pobre da população. Exemplo disso é a filha de pedreiro (presente ao evento) que há muito nos empresta seu braço em Contagem, que acaba de ser aprovada no Cefet, exatamente pelo cultivo do gosto pela leitura. Ou seja, a luta pela criação de hábito de leitura não é questão dependente ou afeita apenas à renda das famílias.

       Confessamos que o panorama no mercado de livros é tão contraditório e esdrúxulo que enfrentar o lançamento de obra literária independente numa cidade como Belo Horizonte é assumir elevado risco de insucesso, com magnitude suficientemente capaz de provocar o total desânimo a qualquer autor, conduzindo-o até mesmo a abandono do exercício da arte da palavra escrita.


Antônio Fonseca, Carlos Lúcio Gontijo e Ieda Alkimim
Foto: Antônio Carlos Dayrell


      Dessa forma, sentimo-nos no dever de fazer agradecimento público a todos que optaram por prestigiar o nosso empenho literário, virando as costas aos vários apelos existentes numa capital, onde a violência desenfreada e o transporte caótico são um convite para o cidadão ficar quieto em casa. Assim, agradecemos profundamente a todos que nos deram a honra de sua presença. Foi uma enorme felicidade contarmos com apoio de vários escritores e poetas independentes, tais como Sônia Veneroso (presidente da Academia Santantoniense de Letras–ACADSAL), Ádlei Duarte de Carvalho, Regina Morelo, Luiz Cláudio Paulo, José Estanislau Filho, Antônio Carlos Dayrell, Fátima Oliveira, João Silva de Sousa. Além de Ieda Alkimim e Antônio Fonseca, que em nome da Academia Betinense de Letras nos outorgaram belo troféu de “Mérito Literário”, com gravação de expressivos versos extraídos de poema de autoria de Antônio Fonseca. “Dá para pressentir:/ Há um burburinho em cada esquina/ Em cada bairro da cidade/ Há um bêbado pensando ser sábio./ Há um mendigo saciado de fome” (...).


Carlos Lúcio Gontijo Antônio Dayrell


        Voltamos para casa com certeza de que a literatura ainda possui atração e força, pois do contrário não contaríamos com presenças ilustres como as do jornalista Hélio Fraga; do ex-secretário do Estado de Minas Gerais José Ulisses; do Professor Irineu, presidente da Câmara Municipal de Contagem; do jornalista Jorge Faria; dos irmãos advogados Sônia e José Magela Couto; do casal Ana Maria e Adílson Batista, que jamais deixou de ir a lançamento de livros nossos em BH; Ângela Maria Sales, autora de “Carlos Lúcio Gontijo na bateia de uma leitora”; e dos leitores Fernando Maia e Ambrosina Castelar, que vieram de Campinas (SP), para nos conhecer pessoalmente. Premiou-nos também com sua presença o jornalista e professor universitário Magnus Martins Pinheiro, que se deslocou de Teresina (PI) e aproveitou para nos agendar lançamento na capital piauiense no mês de agosto próximo.
       Indistintamente, derramamos com emoção o nosso mais profuso agradecimento a todos os amigos leitores presentes, que são uma espécie de coautores, uma vez que os que escrevem necessitam da sensibilidade e da intelectualidade de quem os lê. Sem isso, sem esse mar espiritual, as palavras grafadas no papel não têm onde desaguar.
      
Carlos Lúcio Gontijo
Poeta, escritor e jornalista


Fonte: Poesia Delivery