terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A VOZ POÉTICA DO ESCRITOR CIRO JOSÉ TAVARES - BRASILIA/DF

PATRÍCIOS e PLEBEUS


As cores da saudade estão fixadas num instante crepuscular sobre o rio Potengi, o eclipse das estrias vermelhas que se espreguiçam horizontais engolindo a terra que mergulha no começo da noite. Aqui prefiro lembrar as estivais tardes de domingos no esquecido estádio Juvenal Lamartine.
Nós, os abecedistas mais favorecidos e
marcados pelas nossas raízes canguleiras, ficávamos na ala oeste da arquibancada de madeira. Modestíssima Tribuna de Honra e a parafernália radiofônica de Aluisio Menezes e João Neto nos separavam dos americanos, com seus pavilhões e indumentárias cor de sangue, à direita. Quando o vento vencia a duna coberta de verdes sentíamos o cheiro dos xarias misturado aos gritos.
Na parte contrária à nossa, as gerais concentravam o coração alvinegro, a legião dos humildes, vinda do Canto do Mangue, Areal, Rocas e outros bairros, a pé, pendurados nos estribos dos bondes, morcegando caminhonetes, carroças ou na carona de amigos como Antonio Farache, capaz de duplicar a lotação do seu fordeco 1929 para vê-los vibrando com Albano, Tidão, Tico, Nei Andrade, Badidiu, Gonzaga comandados pelo “professor” Jorge Tavares, o “Jorginho”, sem dúvida o maior jogador da história do clube.
Acostados à mureta que demarcava o limite do gramado, esperavam pacientemente “esfriando o sol”, mal protegidos por chapéus de palhas, bonés encardidos, folhas de jornais, guarda-chuvas derrotados pelo tempo. Multidão sem nome, sofrida, apaixonada e que, por ironia do destino, acabou sendo exaltada, ao receber glorioso epíteto pela voz espalhafatosa e arrogante do fanatismo americano.
A cena é inesquecível. Para alcançar seu lugar na ala leste da arquibancada, “Chico” Lamas fazia o trajeto da provocação e Geraldo, o bilheteiro, não conseguia impedi-lo. Era grande, forte, caminhar bamboleante resultante das cervejas ingeridas. Nas imediações da Tribuna de Honra, olhando o outro lado, acenava e gritava: “Fala frasqueira da geral”. As respostas imediatas eram dedos médios estirados e palavrões quase inaudíveis. E o certo é que a frase repetida muitas vezes acabou, orgulhosamente, guardada nos nossos espíritos.
Recentemente o ABC deu grandioso passo na direção do futuro e ninguém merece mais esse estádio de Ponta Negra do que os indomáveis e resistentes integrantes da amada frasqueira. No moderno complexo esportivo inaugurado estão gravados sonhos atravessando nossa história, desde Vicente Farache, Enéas Reis, Salviano Gurgel, Gentil e João Ferreira de Souza, Felizardo Moura, Pedro Batalha, José Prudêncio, Aluízio Bezerra, José Gobat, José Petronilo, José Ferreira de Souza Sobrinho, Francisco Souza Silva e todos aqueles que não puderam assistir a manhã dessa realidade.
As campanhas dos adversários, enxovalhando homens e nomes, de nada adiantaram. Anos a fio, com o apoio sórdido e histérico da mídia vassala, tentaram humilhar nossa gente, vilipendiar diretores, definitivamente lançar o clube num abismo sem volta. E para surpresa e decepção dos inimigos, quebrados e cobertos de vergonha, estamos bem vivos.Continuamos a exalar pelos poros o indescritível cheiro dos chama-marés, recolhidos pelos nossos antepassados meninos nas margens do rio que nos viu o nascimento e hoje é a primeira lembrança da terra distante e a grande saudade que não me abandona.