sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A VOZ POÉTICA DO ESCRITOR CIRO JOSÉ TAVARES - BRASILIA/DF

PANDORA



                
Diante dos meus olhos outonais o crepúsculo do ano, os dias descem no horizonte do passado, enquanto no lado oposto, pelas venezianas do espaço cortinas filtram os primeiros raios da esperança de um tempo que não sei.
Estou submerso numa colcha de dilemas, como se estivesse alcançado à encruzilhada, no braço à esquerda, as dores e as lágrimas, à direita alegria, festas, risos. E no coração a pergunta:O que fazer? Comemorar?
Estou batendo na face desses dias que se foram. Os deuses mandaram-me de presente uma Caixa de Pandora. Que infortúnio o meu ao abri-la, permitindo que sobre minha cabeça encanecida adejassem suas maldades, todas elas, na verdade, predeterminadas. Primeiro a doença, que me surpreendeu como o ladrão do Evangelho, obrigando-me ao tratamento radioterapêutico, com 53 sessões diárias, que me cansaram o corpo e esgotaram  o caixa ainda não refeito pelo vazamento do acontecido com Zuleide, minha esposa, vítima do mesmo mal.
As desgraças materiais, ao longo do tempo e sacrifícios, você consegue superar. As espirituais são invencíveis, pois chegam e ficam maltratando e inexiste o momento para acabar. Pela metade do ano o Pai do Tempo chamou à sua presença o meu amigo Ruy Gallart de Menezes, uma personalidade rara, daquelas que lembramos todos os dias, reclamando seu silêncio. Não bastasse isso, desde novembro do ano anterior, o outro amigo, Pedro Simões fora confinado à UTI de um hospital para recuperar-se de males que lhe chegavam como se fossem ondas das marés. Pedro está afastado do meu convívio e este é o segundo Natal que celebra estirado numa cama fawler. Procuro, dias sim, dias não, falar com ele ou saber da esposa, jailza, ou da irmã, Joventina, notícias suas.A ausência da sua presença e da sua palavra é uma punição que me entristece  e, também, a outros merecedores da sua estima.
Finalmente, a luz apagada dos olhos de João Paulo de Souza, o “seu” Juca, fundador do Armazém Pará. Tive o privilégio de escrever uma síntese biográfica dele, publicada no seu centenário pela família no livro A Sinfonia do Outono. Guardo dele a imagem aureolada de paz. A canção Praieira era, entre todas, a da sua preferência. Gostava de poesia e conheceu bem Adelle de Oliveira, minha tia-avó. No campo poético eu sempre o provocava com a poesia A Caridade e a Justiça, de Guerra Junqueiro, que recitava, parcialmente, com entusiasmo.
Resta-me cremar a caixa e deixar que ventos levem as cinzas à terra do ontem. Vou esperar a vinda da terra do amanhã lendo poesia. É a melhor maneira de homenagear meus ausentes. É ter um comportamento semelhante ao de Joaquim Cardozo no poema Recordações de Tramataia:
Se eu morresse agora,
Se eu morresse precisamente neste momento,
Duas boas lembranças levaria:
A visão do mar do Alto da Misericórdia
 de Olinda ao nascer do verão
e a saudade de Josefa,
a pequena namorada do meu amigo de Tramataia.