sábado, 29 de junho de 2013

GRANDES PERSONAGENS DO SERTÃO - O LIVRO DE FRANCISCA NÓELIA



Saiu um livraço sobre o povo, a cultura a riqueza do Seridó: “Grandes Personagens do Sertão – A História dos Esquecidos pela História (Ed. Travessia, R$ 20,00), de Francisca Noélia de Oliveira, uma professora que durante 26 anos trabalhou como extensionista rural da Emater percorrendo as comunidades rurais de Currais Novos.

Trata-se daqueles textos deliciosos, sem qualquer pretensão acadêmica, recheado de sabedoria de quem escreve sobre o que viveu. Graças a Senhora Santana Noélia escreveu e publicou esse livro que lemos de uma sentada só (ou melhor, de uma deitada só numa rede, de preferência embaixo de um alpendre, como tive o prazer de fazer no último sábado).

Para além de ser um acerto de contas da autora com as suas memórias pessoais – e nós escrevemos principalmente para ir “em busca do tempo perdido”, como fez o francês Marcel Proust – “Grandes Personagens do Sertão” é um hino de amor ao Seridó, sua gente, seus costumes e sua história (com “h” minúsculo, pois a autora, acertamentadamente, fez a opção de se debruçar, de novo como os franceses da “Nova História”, sobre o cotidiano e a vida privada dos anômimos.

Dividido em três partes (Personagens e Coisas do Sertão; Poemas; e Ditos, Provérbios e Bencãos), o “Livro de Noélia”, como está se tornando conhecido por toda a gente em Currais Novos, terá lançamento oficial durante a Festa de Santana, no mês de julho próximo, mas o sucesso e a propaganda boca-a-boca certamente fará a autora esgotar a tirarem inicial de 500 exemplares rapidamente.

A saga da publicação do livro é um capítulo a parte. Vítima da falta de financiamento público ou particular, a autora fez um empréstimo bancária e encontrou, numa sobrinha que mora em Manaus e tem uma editora, o caminho mais fácil para ver impresso suas letras. Quantos escritores não “morrem na praia” nesse cenário onde é mais vantajoso financiar shows de bandas de forró de mau-gosto? Graças a Deus Noélia foi em frente e nos brindou com essa maravilha de livro!

Não dá pra dizer, daqui pra frente, que sabemos algo sobre o Seridó sem ler “Grandes Personagens…” Se para o escritor Oswaldo Lamartine, o especialista por excelência sobre o Seridó, essa região do Rio Grande do Norte “foi o que nos restou de civilização”, Noélia vem agora mostrar, por meio de histórias do cotidiano recolhidas no seio da sua família de origem rural, entremeadas por outras aprendidas nas suas andanças como extensionista pelos velhos sítios e fazendas, que estamos num lugar onde nunca houve, de fato, espaço para a barbárie.

Vamos ao conteúdo: imagine o que era viver no sertão entre a virada do século 19 até meados dos anos 90. Noélia nos conta, numa linguagem simples, gostosa de ler, detonadora daquele sentimento de saudade e constatação de “que era assim mesmo”, como eram os costumes, o modo de viver, a moda, a culinária, as crendices populares, o peso da religião, os embates sociais entre ricos e pobres e principalmente o amor que nós, os sertanejos, temos pela Mãe Terra.

Veja esse trecho, que belo: “Mexer com a terra, sentir o cheiro de terra molhada, colocar sementes e entupi-la com os pés, cuidá-la, adubá-la com carinho e depois colher seus frutos. Essa é a maior alegria e riqueza dos agricultores. (…) A terra é tão importante que te dá a vida e te acolhe na morte, te guardando em seu seio, para a eternidade”. Antes de ser moda, a ecologia já fazia parte da vida de Noélia.

Meu primeiro contato com a autora se deu no início dos anos 1980. Ela chegava na zona rural onde morávamos falando de igual para igual com todos. Montou um grupo de jovens em companhia da sua colega Marluce Soares e ensinou aos jovens a forma correta de lidar com a terra, fazê-la produzir mais. Às nossas mães, ensinou receitas fabulosas de doces caseiros – muitas das quais fez a fama da minha mãe, Dona Branca, ultrapassar divisas estaduais nesse Brasilzão. Isso não está dito no livro, pois a modéstia é uma das suas características. Mas é como se estivesse. Faz muita falta, hoje, na zona rural, figuras como Marluce e Noélia, que eram nossas grandes referências de sabedoria em busca de dias melhores – como chegaram.

Até hoje. Apesar de todas as facilidades trazidas pelos programas sociais, perdeu-se uma coisa que aquelas duas moças nos ensinaram: orgulho de ser “do sítio”. O livro, de certa forma, vem resgatar isso e deve ser, obrigatoriamente, objeto de leitura em todas as nossas escolas.

Voltando ao conteúdo, em textos curtos, que formam subcapítulos independentes dentro dos três principais e podem ser lidos ao nosso bel prazer, é possível saber, por exemplo, que nas fazendas do Seridó as únicas coisas que precisávamos comprar eram pó de café, querosene para as lamparinas, fósforo e tecido para fazer roupas. Todo o restante produzíamos em casa, desde o sabão, a vassoura, os móveis, até o domínimo das técnicas de conservação de alimentos como a carne e o queijo. Pode parecer pouco, mas na Europa Feudal isso não mais existia.

O Seridó era, e continua sendo, um mundo civilizado, bem longe das franjas o mar, com um sistema de justiça próprio, onde não havia lugar para mentiras e a palavra dada valia mais do que a letra lavrada. A separação entre o mundo dos adultos e das crianças, as brincadeiras junto à natureza, a descoberta do sexo, o respeito aos mais velhos, os ritos da vida e da morte, a geografia das casas e condução do lar aparecem no livro como se entremeado pelas anedotas, as histórias engraçadas, os apelidos que as pessoas colocavam nas outras e as chamadas pilérias (brincadeiras que até hoje funcionam como um códio próprio, entre os seridoenses, quando alguém quer falar algo em privado).

Pois então, quando você passar por Currais Novos agora procure, na Papelaria A Mina de Ouro, o livro “Grandes Personagens do Sertão”, de Francisca Noélia de Oliveira.