sexta-feira, 28 de junho de 2013

"POR QUEM OS SINOS DOBRAM" - ARTIGO DO VEREADOR GEORGE CÂMARA -PCdoB/RN


"Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo..." (John Donne)

Manifestação em Natal-RN no dia 20 de junho.
Com relação às mobilizações nas maiores cidades do país, convocadas por meio das redes sociais pelo Movimento Passe Livre, não me arriscaria a decifrar o seu conteúdo.
Como diz o escritor François Silvestre, trata-se de um “levante ainda longe de ser compreendido”. Mas uma coisa é certa: sua motivação vai muito além dos meros vinte centavos de aumento nas tarifas de transporte.
É bem verdade que diante de um sistema caro e de péssima qualidade, em cidades de trânsito congestionado, a luta pela redução do preço das tarifas e até mesmo pela sua gratuidade total é uma bandeira que poderá agregar multidões. Diante das necessidades na mobilidade urbana e acessibilidade das pessoas, o direito ao transporte público de qualidade se equipara ao direito à saúde e à educação, consagrados na Constituição Federal. Fazem parte do direito à Cidade.
Tomada isoladamente, essa luta se revela incompreensível. Como pode, de uma hora para outra, as ruas serem ocupadas por milhares de jovens estudantes, em sua maioria de classe média, reivindicando redução do preço da passagem em vinte centavos? Não sei se estamos nos dando conta do significado desses acontecimentos e muito menos quais seus possíveis desdobramentos.
Considerando, entretanto, as condicionantes históricas e o modelo de cidade que se formou no Brasil, nas últimas cinco décadas, arriscaria alguns palpites nestas linhas. Na cidade especulativa, excludente e desigual, semear ventos só poderá provocar tempestades. As pessoas estão vivendo num inferno nas grandes cidades, perdendo quase quatro horas por dia no trânsito, quando poderiam estar com a família, estudando ou tendo atividades esportivas ou culturais.
Para a Professora Ermínia Maricato, que atuou no Ministério das Cidades na gestão de Olívio Dutra, há uma crise urbana instalada nas cidades brasileiras, provocada por essa etapa do capitalismo financeiro. Nos últimos três anos, uma enorme especulação imobiliária elevou os preços dos alugueis e dos terrenos em média 150%. O capital financiou sem controle governamental a venda de automóveis, para enviar dinheiro ao exterior, transformando nosso trânsito num caos.
Contra o que lutam essas pessoas? Conscientemente ou não, lutam contra um modelo de cidade absolutamente esgotado. Cidade não é só casa, rua e bairro. É garantia do acesso aos serviços de saúde, à educação de qualidade, à segurança pública, aos espaços de lazer, de cultura, de esporte. Cidade é gente, é dignidade humana. Ou deveria ser.
Quando Ernest Hemingway escreveu o seu clássico “Por quem os sinos dobram”, inspirado na Guerra Civil Espanhola, ao parafrasear o grande poeta inglês John Donne, conclui a sua citação “... e por isso não me perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.” Se perguntarmos pelo que esses jovens estão lutando, talvez não exista outra resposta: lutam por si. Não numa perspectiva individualista, mas coletivamente.
Lutam pelo seu futuro. Pelo direito às oportunidades, direito à dignidade. Pelo direito à Cidade. Por isso, saudamos os últimos acontecimentos: essa garotada nas ruas poderá fazer a diferença, em favor do Brasil e do nosso povo.
Para onde vai esse movimento, seguramente não sei. Não hesitaria em afirmar, porém, que essa juventude tem inteligência o suficiente para não ser massa de manobra de quem quer que seja. Nos momentos decisivos sabe separar o joio do trigo, se livrar das artimanhas da mídia conservadora, afastar os oportunistas e derrotar os inimigos do povo.
*George Câmara, petroleiro, advogado e vereador em Natal pelo PCdoB (26/06/13)