quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A VOZ POÉTICA DO CIRO JOSÉ TAVARES - BRASILIA/DF


ODE DO REENCONTRO
Ciro José Tavares

“Não viaja ao passado porque dói”.
Pablo Picasso

Tão fatigante espera, que demora
de ontem. Misteriosa força além de nós
Escondera o sol nas dobras do espaço,
ou mantivera as vidas do passado
presas numa nebulosa de ninguém.
Com as roupas do abandono viajamos
muitos universos medrosos do retorno.
E agora que cortamos, com adagas de prata,
os fios saudosos da distância e do silêncio,
ancoramos no antigo porto nossos barcos,
estais e cascos arruinados pelo tempo.
Sinto saudades dos que não suportaram
até aqui a travessia do oceano
e assisto seus inesquecíveis vultos,
imortais emergindo nos meus sonhos,
escuto vozes como se despertas estivessem
vindas das profundas cavernas do horizonte.
Que me importa o tardio reencontro
se redescobri pelas mãos do criador
o sol do amanhã que nos aquece e ilumina.
Vencidas a fadiga, a espera, a demora,
bússolas, sextantes direcionados
às inatingíveis elipses futuras,
porque o inimigo diuturno não perdoa
e marca o quarto - minguante das frágeis armaduras.
Ainda assim, apesar das tempestades,
o milagre de viver é doce e bom.
Ver o poente partir e regressar
renovado nos braços da aurora,
a semente germinar no canteiro
e medrar crestada pela brisa vespertina,
a estrela cadente riscar o firmamento
e fugaz adormecer na própria luz.
Que espera, que demora, intermináveis,
que fadiga vencer saudade angustiante,
que amortece de tristezas minha alma,
aquieta meus sentidos e, finalmente, me derrota
.