domingo, 4 de julho de 2010

UM CORDEL SOBRE A TORTURA - JOSÉ ACACI



Pra mostrar esses versos que apresento
eu me visto no manto da humildade,
pois não quero ser dono da verdade,
quero apenas dar meu depoimento,
e chamar a atenção nesse momento
para essa ferida na estrutura
dessa sociedade e na cultura
de um povo sofrido, que rejeita,
mas ao ficar calado, ele aceita
essa praga chamada de tortura.
Quem se sente à vontade pra pensar
em promover ou apoiar a tortura,
estará cometendo uma loucura,
uma insanidade milenar.
É preciso parar para pensar
que a tortura é uma barbaridade.
É a mão consciente da maldade
trabalhando com projetos e planos
pra trazer para nós seres humanos
sofrimento, injustiça e crueldade.
A tortura transforma nós humanos
nos mais vis dos mais vis seres que existem,
e o silêncio daqueles que assistem
e se calam, também comete danos.
O Brasil, a mais de quinhentos anos,
utiliza da prática da tortura,
da colonização à ditadura.
Dos escravos trazidos nos porões
até hoje, no escuro das prisões,
essa prática mantém sua estrutura.
Na tortura tem a ação ativa
do agente que é o torturador,
além do torturado, o sofredor,
e da sociedade permissiva.
Quem se cala é agente da passiva,
pois permite que um crime aconteça
sem que o criminoso reconheça
e pague pelo crime cometido
contra quem deveria ser punido
com a pena que acaso ele mereça.
Os indígenas foram torturados
e até hoje ainda guardam na memória
os momentos cruéis da sua história
com irmãos e parentes dizimados.
Não podemos ver e ficar calados
ao saber que essa prática funesta,
uma ação ignóbil como esta,
é usada pra arrancar confissões,
promovendo dores e humilhações,
sofrimentos e tudo que não presta.
As torturas guardadas na memória
não merecem ficar na impunidade.
Foram crimes contra a humanidade,
mas que foram julgados pela história.
Numa guerra, quem obtém vitória,
perpetua a surdez e a cegueira,
conta os fatos, mas à sua maneira,
o grilhão da tortura ele destrói,
e por trás da verdade se constrói
uma história que não é verdadeira.
Na história recente brasileira
e nos noticiários atuais,
as torturas já são casos banais,
e esse tema é notícia corriqueira.
É preciso frear essa carreira
no caminho febril da impunidade,
e lutar para que a sociedade
abra os olhos da sua indiferença,
pra tentar se livrar dessa doença
que assola valor da humanidade.
Sucessivos governos brasileiros
assinaram convenções e tratados.
Protocolos foram ratificados,
e os paises seguiram esses roteiros
de ações em busca dos verdadeiros
culpados pela prática das torturas.
É constante essa luta nas procuras
pelos torturadores e mandantes.
É luta de vitórias flutuantes,
e vitórias de poucas criaturas.
Num país que sua lei objetiva
que é crime o ato de torturar,
não se sente de bem ao se falar
da pessoa que faz ou incentiva,
da que assiste de forma permissiva,
das que vêem e que ficam caladas,
ou acham que as pessoas torturadas
merecem todo aquele sofrimento.
Isso é coisa que não tem cabimento
em nações que se dizem respeitadas.
Não podemos ficar indiferentes
à tortura em qualquer modalidade,
e nenhuma ação com gravidade
justifica as torturas conseqüentes.
E as pessoas que assistem coniventes
apequenam nossa sociedade
quando, num ato de leviandade,
deixam pessoas serem torturadas,
espancadas, marcadas, humilhadas,
e feridas na sua integridade.
Há exemplos de gente torturada
simplesmente por não ter documento,
ou por estar jogada ao relento
cochilando na fria madrugada.
E por qualquer motivo é espancada
seja por opção sexual,
condição psíquica e mental,
sua raça, sua cor, sua cidade,
o seu gênero, o seu time, sua idade,
ou a sua condição social.
Precisamos que a sociedade
abra os olhos contra todos os fatos
que sejam associados a maus tratos,
sofrimentos e a impunidade.
Precisamos que em cada cidade
aconteça uma conscientização
dos direitos de cada cidadão,
e que todos se engajem na procura
de uma sociedade sem tortura,
essa coisa sem lógica e sem razão.
Em resumo, o que estamos precisando,
é de um pouco de amor no coração,
mais respeito para o cidadão,
e atenção pra quem está precisando.
Omitir-se é como estar apoiando
a tortura, esta ação má e servil.
E essa nossa luta varonil
deve ser incansável e persistente,
pra um dia dizermos plenamente:
“Acabou-se a tortura no Brasil.”