segunda-feira, 16 de novembro de 2009

POESIA - FILOSOFIA - POESIA

No contexto literário-filosófico Poesia e Filosofia podem ser consideradas rimas boas e ao mesmo tempo ricas, visto que se combinam exatamente e não são pobres ou vulgares porque não são tão comuns. Apesar de serem da mesma categoria gramatical – ambas substantivos – semanticamente se distinguem uma da outra e herarquicamente a poesia antecede à filosofia, porém, vivem harmoniosamente quando se refere ao uso na arte da palavra. Neste caso é onde se caracteriza um tipo de rima bela e riquíssima tanto no texto literário quanto no texto filosófico que se fazem intrinsecamente poéticos e com isso a denominação de prosa poética como em textos do escritor José de Alencar ( Iracema) e de textos do filósofo Heidegger ( Caminhos do Bosque). Por essa razão, denominarei poesia – o que hoje se chama literatura –, tudo o que já se foi expresso oralmente ou escrito no pretérito. Tudo era poesia. Eis que “o verso é mais antigo que a prosa e as obras dos grandes poetas têm demonstrado que o ritmo próprio de um idioma manifesta-se plenamente na criação poética, tanto na que obedece a padrões métricos e estróficos predeterminados, quanto no verso livre, que segue apenas as pausas e os critérios rítmicos sugeridos pelas palavras escolhidas.” (Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.). Tem-se a tragédia, a comédia, o drama, a filosofia ou o trágico, o cômico, o dramático, o filosófico. Tudo se resumia em poesia que, nessa perspectiva, pode-se dizer que ia de Homero / Píndaro a Sófocles / Eurípedes ou de Heráclito / Parmênides a Aristóteles / Nietzsche. Em Heráclito o lógos – o Ser – se dá a conhecer pelas palavras e pela ação. Mas porque “a natureza ama ocultar-se”, ao sábio [ou ao poeta] cabe despertar os homens para o conhecimento e para a ação em conformidade com a Natureza, decifrando-a, como se decifram os enigmas (Introdução à história da filosofia – os pré-socráticos, pág. 85) Esse ocultamento da natureza aparece de forma alegórica em “Édipo Rei” que é a Esfinge, e o homem é Édipo que busca e desperta para o conhecimento, o saber ao decifrar justamente o enigma da esfinge e termina se fazendo rei de Tebas; e tal como um filósofo Édipo usa a sua inteligência, o lógos, a razão, o ser e vai de encontro ao adivinho, Tirésias, ao deus Apolo perscrutando tudo sobre a verdade dos fatos. Percebe-se, com isso, que Édipo sente prazer em exercitar o seu pensar à medida que as coisas vão se revelando à sua vista e vai descobrindo o poder que o conhecimento lhe dá ante a revelação dos fatos. Como já dissemos, anteriormente, o poeta trágico é o filósofo que se vela na personagem e esta se revela como filósofo utópico; enquanto o filósofo Parmênides se revela sábio e vela-se como poeta no poema filosófico quando nem mesmo na poética de Aristóteles não se revela nenhuma forma de poesia filosófica, vela-se naturalmente, visto que Aristóteles é verdadeiramente filósofo-poeta-filósofo.
Ainda no início dessa reflexão vimos que o escritor e poeta Machado de Assis em seu romance “Brás Cubas” cria a personagem Brás Cubas, o Humanita, para divulgar o seu pensamento filosófico. Fato é que Machado de Assis ou a personagem Brás Cubas fazem-se filósofos a utilizar o aforismo “ao vencedor, as batatas”. O interessante é que tanto poetas quanto filósofos se utilizam desse recurso que é o de ter uma personagem como veículo transmissor e mediador da sua mensagem, do seu pensamento filosófico. Não estaria eles fazendo o mesmo que os poetas clássicos que invocavam as musas para exaltarem seus cantos? Assim como o fez Sófocles em “Édipo Rei” com a personagem Édipo e o aforismo “decifra-me ou devoro-te” querendo mostrar o processo do saber pela investigação; assim como também o fez Platão em “A República” com a personagem Sócrates e os aforismos belíssimos como “conhece-te a ti mesmo” e “só sei que nada sei” como num processo de desmistificação através do lógos, do pensamento; bem como Nietzshe e a personagem Zaratustra e o aforismo “Deus está morto” como uma mudança radical do pensar ocidental com a transmutação dos valores.

M. C. Garcia é poeta e filósofo. O texto acima faz parte de um trabalho realizado em sala de aula no Curso de Filosofia na UFRN. (garciamc2001@hotmail.com / logosmc@ig.com.br)