quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

CRÔNICA DE MÁRIO IVO CAVALCANTI - SOBRE A POETISA LÚCIA HELENA , A BARONESA DE CEARÁ MIRIM



ADVINHE QUEM VEM PARA O CAFÉ DA MANHÃ"?

"Escutava as vozes noturnas no Oiteiro. Os pirilampos
eram as minhas estrelas, tão próximas,
cercando-me de emoções".
Maria Madalena Antunes Pereira
"Adivinhe quem vem para o café-da-manhã? Lúcia Helena Pereira
30 de novembro de 2008

[Cultura 291108 sábado]

“Sou um poema inacabado”, revela Lúcia Helena Pereira em seu blog (www.outraseoutras.blogspot.com).

Lúcia Helena é também um furacão em construção.
Um tsunami de simpatia.
Alguém que sabe que o menor caminho entre dois pontos é uma reta.
O “poema inacabado” foi a primeira mulher deste Rio Grande a presidir a AJEB, Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, EM 19 ESTADOS. Ocupa a cadeira 11 da Academia Feminina de Letras, tendo como patronesse a sua avó paterna Madalena Antunes - que dedicou para a então menina de 13 anos, na primeira edição de “Oiteiro”: “À minha netinha Lúcia Helena, para quem as estrelas brilham no céu da sua alma, oferto o meu romance, escrito como se fosse uma vênia aos que me acompanharam na bela jornada, onde , genuflexa e agradecida, rendo minha homenagem ao passado e às paisagens que tanto encantamento me deram. Por conseguinte, um livro de reminiscências, de louvores e imensa saudade dos meus ancestrais e daqueles que me seguiram na trilha dourada do amor e nos caminhos das dores e belezas. Sua avó, Lhene (Magdalena).”

Com os olhos no presente, mas sem esquecer o passado, Lúcia Helena relembra a avó, a escritora.


DA MULHER PARA A MULHER
Quando a A.S. Livros procurou-me, através dO SR. Cícero, em 2001, com vistas à segunda edição do livro de vovó, fiquei encantada. Afinal, o amado primo Nilo Pereira lutou muito por essa reedição, mas, em vão. O fato é que a menina do vale, a dama de olhos oceânicos, a sinhá-moça (sinhá-Lica) do Oiteiro, como que miraculosamente voltou! E voltou cheia do feitiço das lembranças fiéis.
Seu livro, numa tiragem de 3.500 exemplares, integrando a coleção Letras Potiguares, esgotou-se rapidamente. Eu recebi 50 livros, dos quais só me resta um exemplar, e Uruquinha (Denise Pereira Gaspar), MINHA PRIMA, comprou cerca de 300 ou 400 exemplares, os quais, em noite pré-natalina no Ocean Palace, ofereceu aos parentes e amigos.
Lembro-me do rebuliço desse livro, nos idos de 1956 a 1958 (os festejos anteriores e posteriores ao seu lançamento). No terraço da velha casa de vovó Madalena, na Hermes da Fonseca, nº 700, entravam e saíam os intelectuais amigos da sinhá-moça: Luís da Câmara Cascudo, Manoel Rodrigues de Melo, Américo de Oliveira Costa, o sobrinho Nilo Pereira (que vinha do Recife, uma vez ao mês, quando da organização do livro), Veríssimo de Melo e tantos outros cultores das Letras!
Vovó, em sua cadeira de rodas, com a paciência de uma santa, em vários momentos demonstrava suas emoções e víamos as lágrimas brincando em seus olhos. Numa dessas reuniões ela pediu aos amigos: “Deus do Céu, vamos devagar com esse livro, eu já não tenho uma perna… do jeito que as coisas vão andando, perderei a outra”. E esbanjava um sorriso da alma.
Antes da noite de autógrafos, em 1958, no auditório da Fundação José Augusto (antiga Escola de jornalismo de Natal), vovó recebeu a visita da redatora-chefe da revista, “Da Mulher para a Mulher”, Sra. Maria Tereza.
Assisti essa cena, no velho terraço, com olhos de menina, olhos de amor e olhos de encantamento. Eu tinha 12 anos de idade e guardei essa entrevista em minha memória (eu tinha uma edição dessa revista…).
Uma das perguntas surgiu quando a jornalista Maria Tereza observou-lhe, no olhar, um intenso brilho para um dos galhos da mangueira secular, junto ao terraço, onde vovó escrevia e um lindo pássaro construíra seu ninho.
“E essa árvore, dona Madalena, tem alguma importância para seu livro?” Vovó esboçou suave sorriso, respirou fundo e respondeu:
“As árvores, menina, também saem dos seus lugares e dão sombra e frutos. Nelas os pássaros constroem seus abrigos, formam sua ninhada e cantam as suas sinfonias.”
Madalena Antunes (nascida em 25 de maio de 1880) faleceu aos 79 anos (11 de junho de 1959), na sua casa querida da Hermes da Fonseca, onde realizou seu maior sonho: a publicação do seu livro de reminiscências. Era irmã de Etelvina Antunes de Lemos (poetisa), Juvenal Antunes de Oliveira (promotor de justiça, boêmio e poeta) e Ezequiel Antunes de Oliveira (capitão do exército e médico).
Era filha do tenente-coronel José Antunes de Oliveira e Joana Soares de Oliveira (proprietário e responsável pela construção do Solar dos Antunes – 1880).
Há muito que falar sobre os Antunes e Pereira. Família de escritores e belos poetas. Um exemplo disso é o primo Nilo Pereira (maior cronista literário do RN) e Ruy Antunes Pereira (pai de Uruquinha, Denise), que deixou, em suas epístolas, motivos sobrados para que Denise e eu organizássemos o seu livro “Mucuripe, o mundo encantado de Ruy Antunes Pereira”. Dele, bastaria essa imagem poética para a dimensão maior da poesia de sua alma: “Estarei sonhando? Este vale existe? E o verde é uma cor, um sentimento” (trecho de uma das cartas de tio Ruy para mim – a “sobrinha dileta”). [Lúcia Helena Pereira]

Mário Ivo Cavalcanti
Escritor e Jornalista
Edição Jornal de Hoje