domingo, 11 de setembro de 2011

A EXPRESSÃO POÉTICA DE CIRO JOSÉ TAVARES - CEARÁ MIRIM/RN

ORATE FRATES


“irmãos humanos que ainda viveis,

Não sejais corações endurecidos;

Tendo pena de nós, pobres, talvez

De Deus sereis mais cedo merecidos.”

François Villon, in Epitáfio Villon

Nas vidas de muitas esquinas perigosas

Uma delas contornei há alguns anos,

e espiei suspenso na incerteza o vir da noite

murmurando expectante, kyrie eleison.

Outra vez o tempo parece refluir

às recomendações de minha mãe,

voz quase inaudível sem a antiga fortaleza,

ao silêncio do pai nos idos do seu último agosto.

Na repetição do mistério que nos ronda,

como se fossemos submersos num redemoinho,

retornando do fundo à tona por milagre,

devemos à diuturna companhia do Espírito Paráclito.

É quando voltamos à infância, à capela do colégio,

aos terços rezados na metade das manhãs.

É quando queremos crer sem lavar as nossas culpas,

fugimos, renunciamos à pia batismal,

ao catecismo que nos levou à primeira comunhão.

Cúmplices que somos de lógica absurda

fazemos parte da existência ficção espiritual,

cegos à angústia nos jardins de Grtsêmani,

incapazes de vigiar, mudos à oração.

Ao amanhecer, alegres celebramos o futuro

esquecidos do cálice do perdão e do amor nas nossas mesas.

Ah! Doloroso martírio não saber da próxima esquina perigosa,

da via crucis, crucificação dos pecadores.

Ao vir da noite lave-me o Cordeiro nas águas do Jordão

e puro eu adormeça entre as sarças ardentes do Sinai.