segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

PROFISSÃO PROFESSOR: A ÚNICA QUE TODO MUNDO SABE QUANTO SE GANHA.


NUNCA COMPREENDI, POR QUE O SALÁRIO DO DOCENTE É TÃO COMENTADO. A MAIORIA DOS BRASILEIROS GANHAM SALÁRIO MÍNIMO E NINGUÉM SE PREOCUPA, ALGUMAS OUTRAS PROFISSÕES TÊM A MESMA MAZELA,DE GANHAR POUCO, MAS NINGUÉM COLOCA NA RUA O QUE GANHA, OS MÉDICOS TAMBÉM TÊM JORNADA DUPLA, AS VEZES TRIPLA MAIS NINGUÉM SE PREOCUPA COM OS SALÁRIOS DELES, ADVOGADOS IDEM. POR QUE SOMENTE A MINHA CATEGORIA É EXPOSTA? NÃO DIRIA QUE GANHAMOS BEM, MAS FICO DESCONSERTADA COM A MALÍCIA DAS PESSOAS COM MINHA CATEGORIA, DIZENDO MUITAS VEZES QUE O COITADINHO DO PROFESSOR NÃO PODE COMPRAR CARRO E NEM CASA POIS GANHA POUCO DEMAIS. TAMBÉM CONHEÇO ENGENHEIROS, MÉDICOS, ADVOGADOS QUE FAZEM BICOS E AI....
professor_palhaço

Republico matéria do Jornal Diário de Natal, Cidades, 04/12/2011

Baixos salários e falta de reconhecimento levam um terço dos docentes a fazerem bicos para complementar a renda
Francisco Francerle // franciscofrancerle.rn@dabr.com.br

O sol do rio Potengi já está dando seus últimos reflexos, as lojas do centro da cidade começam a se preparar para fechar logo mais. São quase 18h, os comerciários atendem seus últimos clientes e em pouco tempo estarão nas ruas para o regresso às suas casas, um público cativo para um vendedor de pipocas montar seu carrinho de lanche na avenida Rio Branco, na Cidade Alta – e ganhar mais dinheiro do que ser professor do Programa Mais Educação. O testemunho não teria tanto valor se o vendedor, na verdade vendedores, não fosse o casal de professores Sandro Tomaz de Oliveira, 40, e sua esposa Francisca Soares Cortez, 40, do Mais Educação, que dão aulas de dança e rádio em três escolas da rede municipal de Natal, dentro do Pr, ograma Mais Educação. Nas escolas eles ganham juntos R$ 620 para dar aulas diariamente nos dois turnos. Já no carrinho de lanches, em apenas duas horas de trabalho, eles faturam cerca de R$ 1 mil vendendo pipocas, água mineral, refrigerantes e balas.A história de informalidade do casal de professores, que tem que fazer bicos para sobreviver, não é exclusividade de programas pontuais como o Mais Educação, que funciona apenas no contraturno do ensino fundamental através de atividades de cidadania, esporte e reforço escolar. Recente estudo de professores da Universidade de São Paulo (USP), com base na Pesquisa por Amostragem de Domicílios (PNAD) realizada pelo IBGE em 2009, revelou que cerca de 10% dos docentes brasileiros da educação básica, ou seja, 226 mil professores, complementam suas rendas com atividades desempenhadas fora do magistério, sobretudo através de vendas de cosméticos.

Esse índice está bem acima do da população brasileira que tem outro trabalho, que é 3,5%. Outro dado relevante sobre a complementaridade da renda familiar da categoria pode ser extraído do Censo do Professor (MEC/INEP-2009). O estudo indica que, pelo menos, um terço do professorado da educação básica pública desempenha dupla ou tripla jornada de trabalho naprofissão. Ou seja: a renda é reforçada por meio do principal instrumento de trabalho, porém de forma que compromete a saúde do educador e a própria qualidade do ensino.

Realidade

Alguns dos mais frequentes “bicos” dos docentes são os de vendedores em lojas e os de funcionários em serviços de embelezamento. Para os autores do estudo, a maior incidência do “bico” entre os professores está relacionada aos baixos salários. Uma realidade que não surpreende porque não é difícil de ser constatada para quem vive o cotidiano das escolas públicas. Os resultados da pesquisa surpreendem mais pelo baixo percentual de quem pratica outras atividades. Em rápida visita a algumas escolas da rede municipal de Natal, a reportagem do Diário de Natal apenas constatou o óbvio.

Nas escolas Jerônimo Gueiros e Joaquim Torres encontramos os professores Sandro e Francisca que lutam pela vida ensinando crianças e adolescentes técnicas de dança que poderão até influenciar em um futuro profissional. Já na Escola Maria Queiroz, em FelipeCamarão, Zona Oeste da cidade, encontramos as professoras do ensino fundamental Maria Aparecida de Almeida Rego, 29, que ensina língua portuguesa e vende cosméticos da Natura, e a professora de matemática Josefa Poliana Clementino Ferreira, 29, que vende Avon, Natura, Hiroshima e Quatro Estações.

Casada e com uma filha, Aparecida é professora do quadro efetivo do município e do Estado há sete anos, ensinando os dois turnos e percorrendo duas escolas. Ela diz que vende cosméticos e utensílios para complementar a renda porque quer dar um futuro mais digno para sua filha de cinco anos. A família é pequena, mas mora em casa financiada pela CEF. Residente em Nova Parnamirim e ensinando em Felipe Camarão, ela não tem carro próprio, paga transporte escolar para a filha e, como está sem receber vale transporte há dois meses (apesar do valor ser descontado) gasta um bom percentual do seu salário com transporte coletivo e restaurante. Como vendedora, ela admite que o lucro é pequeno, mas o suficiente para comprar produtos cosméticos e de higiene pessoal que toda mulher necessita, como perfumes, cremes e batom. Ela diz que esses gastos são necessários porque todo professor lida com o público e tem que preservar sua aparência em sala de aula.

Já a professora Josefa Poliana Clementino Ferreira, para complementar a renda, tem que vender produtos para quatro indústrias de cosméticos. Casada, tem um filho de cinco anos, é professora de matemática do quadro do Estado e do município com 20h cada. Além da Escola Municipal Maria Queiroz, ela também trabalha na Escola Irmã Arcângela, em Igapó. Ensina uma média de nove horas por dia, além das atividades de planejamento e correção de provas e trabalhos que geralmente faz em casa. “Vendo cosméticos porque não tenho casa própria, preciso pagar aluguel, escola, prestação de carro, e alimentação, água e luz. Ofereço os produtos nas poucas horas vagas, por isso não vendo muito, o lucro é pouco, ganho em torno de 20%. Faturo uma média de R$ 150 a R$ 200, isso é uma boa ajuda no pagamento dasdespesas. O meu sonho é comprar a minha casa própria e ter meu trabalho reconhecido”, revela Poliana.

“Não largo tudo porque sou professora por convicção”

“Muitas vezes viro a madrugada corrigindo provas, um trabalho cansativo que ninguém vê e que implica em condições físicas e emocionais na sala de aula. Falta dinheiro para o lazer, passear com o filho no shopping, numa praça, ir ao cinema”, disse Aparecida. Mesmo não tendo o reconhecimento do trabalho, ganhando baixos salários e forçada a se submeter à carga complementar, além de atividades informais para ajudar no sustento da família, os professores não largam a sala de aula. “Não largamos porque amamos nossa profissão, sou professora por convicção. Trabalho em duas escolas, amo o que faço e me esforço ao máximo em sala de aula. Fico triste em não ter meu trabalho reconhecido pela sociedade. Mas não aceito o discurso de senso comum dessa desvalorização que nos aconselha que mudemos de profissão, porque qualquer atividade dá mais lucro e reconhecimento do que ser professor”, declara a professora Maria Aparecida.

As autoridades do país reconhecem os baixos salários pagos aos professores, mas dizem que estãomelhorando. O secretário municipal de Educação, professor Walter Fonseca, justifica que essa situação é do magistério de modo geral. Mas em Natal, ele diz que os professores estão em situação de destaque porque enquanto o piso nacional é de R$ 1.170 por 40h, o município paga R$ 2.426 para essa mesma carga horária, o dobro do piso nacional. “O problema é que o piso nacional já é muito baixo e que o professor deveria ganhar melhor. Agora, a questão do professor ter dupla jornada é histórica e acontece da universidade ao ensino fundamental que é fruto de uma política nacional que não dignifica o magistério”, disse o secretário Walter Fonseca.

CNTE defende aplicação de piso vinculado à carreira

A pesquisa da USP com base na Pesquisa por Amostragem de Domicílios (PNAD/IBGE-2009), comprova que a recorrente economia de recursos do Estado, que concedeu ao magistério a possibilidade de possuir mais de um vínculo empregatício no setor público e que exime os gestores de investir na formação inicial e continuada e nas condições de trabalho da categoria, cada vez mais colide com a perspectiva de melhorar a qualidade da educação. Segundo a Confederação Nacional de Trabalhadores em Educação (CNTE), ao invés de reverter essa realidade, as administrações públicas investem na responsabilização dos educadores pela baixa qualidade dos sistemas de ensino, cuja gestão, em sua maioria, não permite a participação da comunidade escolar nos processos de formulação, aplicação e verificação das políticas públicas.

Para a CNTE é óbvio que os problemas inerentes à qualificação profissional do magistério não se restringem ao salário. Mas esse, conjugado com a expectativa de carreira e de valorização social da profissão, é o maior deles. Corroborando essa tese, o diagnóstico da Meta 17 do Plano Nacional de Educação, que trata da remuneração do magistério, revela que o professor com formação de nível médio (curso de magistério) detém renda média 38% acima dos demais trabalhadores brasileiros com escolaridade similar. Contudo, essa relação se inverte, na mesma proporção, quando o professor com formação de nível superior (maioria no Brasil) tem sua renda comparada com os demais trabalhadores de formação universitária. E isso é um fator de desestímulo à qualificação, ainda mais quando o próprio professor precisa arcar com o ônus financeiro de sua formação ou quando não dispõe de concessão de tempo pelos gestores para fazê-la adequadamente.

“O piso nacional do magistério – vinculado à carreira – representa um primeiro passo na direção da equidade laboral dos educadores no país, condição fundamental para elevar a qualidade da educação com equidade. Mas muitos governadores e prefeitos insistem em não observar a norma federal que também prevê jornada de trabalho para o professor com tempo dedicado às atividades extra-sala de aula (preparação e correção de atividades, reuniões pedagógicas e com os pais, formação no local de trabalho, dentre outras)”, esclarece a CNTE.