terça-feira, 31 de março de 2015

A VOZ POÉTICA DE IARA MARIA DE CARVALHO - CURRAIS NOVOS/RN

 Resultado de imagem para iara maria de carvalho

tanta fome


mordi as lâmpadas da casa
à procura de um cacho de luz
capaz de adivinhar
o que me queima tão forte.

os panos da cortina eu mordi,
móveis antigos e frutas de plástico,
todos os ossos roídos do cão.

meus dentes trincaram
depois que triturei os pratos de porcelana
e o sangue correu até o cós
da minha saia incoerente.

arranquei os dentes do piano,
dos garfos e dos pentes,
gengivas de objetos inefáveis
e dos óculos, suas lentes.

mastiguei a casa, o tempo,
o fogo da lareira inexistente,
a botija agourenta,
toda a louça encardida dos banheiros.

lambi depois o calor
e o guardei no frasco de vidro
de um antigo poema:

mora agora com milagres,
o meu calor colorido,
habita o espaço vivo da palavra mais cortante.

possivelmente humana.

e úmida.


um vão


quero a alegria dos esquecidos.
a sua vida morna sem medo ou desafetos.
o terraço limpo, os sapatos preenchidos,
e a mesa coberta por uma toalha colorida
abrigando frutas e dores invisíveis.


uma lagartixa louca


de um lado para o outro.
a cerâmica da casa era a mesma.
a poeira, sempre a mesma poeira, era a construção do vizinho.
o ano passou, a poeira foi levando os meus trinta anos pra debaixo do tapete colorido.

e eu sobrevivi.

contando nos dedos cada dia.
desejando ser o último.
vá embora. ande. corra, sua lagartixa louca. acabe.
dizia a dona doida.

sobrevivi aos trinta anos com uma cárie a menos.
um sonho a menos.
um pai a menos.

e se é tempo de voar,
desengaiolo os lírios do meu cérebro de cimento

e deliro.


Iara Maria Carvalho
Currais Novos/RN