terça-feira, 15 de julho de 2014

O CORDEL DE JOSÉ ACACI - O CANCIONEIRO POTIGUAR



UM CORDEL PARA VOCÊ
QUE CHORA POR FUTEBOL - José Acaci


Fui menino como tantos meninos
que à tarde, ao cair do arrebol,
ia para um campinho de pelada
e jogava até não ver mais o sol.
Eu corria, driblava e dava chutes,
e gozava o prazer do futebol.

Relembrando meu tempo de criança
posso hoje dizer que tive a sorte
de jogar bola com os pés descalços,
dar topada em buraco e levar corte,
pra dizer hoje em dia pros amigos
que aquilo era o verdadeiro esporte.

Eu torcia por um time famoso,
e era fã de um grande jogador.
Quando ele fazia um gol de placa
eu vibrava com raça e com amor.
O meu deus era aquele centro-avante.
Nada mais para mim tinha valor.

Acontece que um dia o artilheiro
desse time pelo qual eu torcia,
resolveu ir jogar em outro time,
justamente o time que eu não queria.
Descobri que o dinheiro é quem domina,
e achei que foi uma covardia.

Esse atleta, quando era entrevistado,
a camisa do time ele beijava.
Eu pensei que ele amava o time
com o mesmo carinho que eu amava.
Quando foi pro outro time eu logo vi
que não era do jeito que eu pensava.

E passei a pensar sobre essas coisas:
O salários dos grandes jogadores;
os bilhões que são gastos numa copa;
hospitais sem remédio e sem doutores;
os aumento gerais na violência;
e o salário dos nossos professores.

E pensei:  ̶  Como alguém pode ganhar
cem milhões só porque chuta uma bola?     .
̶  E porque quando um time perde um jogo,
cidadão chora que não se consola,
mas não chora quando tem uma greve
e seu filho não vai para a escola?

Perguntei-me:  ̶  O que é mais importante?
̶  O meu time ter mais uma conquista?
̶  Os nossos hospitais funcionando?
̶  O estádio mais novo de uma lista?
̶  Um drible de um grande jogador?
̶  Ou o feito de um grande cientista?

Outro dia, na fila de um banco,
escutei um senhor que conversava
sobre a copa do mundo no Brasil,
e até muito feliz ele falava,
e prestei atenção no que ele disse
para outro rapaz que o escutava.

Ele disse:  ̶  Nós perdemos a copa,
mas ganhamos um estádio grandioso.
Quase quinhentos milhões de reais
foram gastos nesse bem precioso,
pros atletas poderem jogar bola
no seu campo bonito e espaçoso.

O rapaz que estava escutando
virou-se para ele e disse assim:
̶  Para quê um estádio assim tão bom,
e uma educação assim tão ruim?
Esse estádio pode valer milhões,
mas não vale um centavo para mim.

E depois o rapaz continuou:
̶  O governo decide, vem e faz,
se quisesse faria mais escolas,
mais estradas e muitos hospitais,
mas um estádio, meu caro amigo, diga:
̶  Qual é o benefício que lhe traz?

O senhor que escutava, nesse instante
quis falar mas a língua deu enguiço,
repensou sobre o que tinha falado,
e na copa com todo seu feitiço,
em seguida falou para o rapaz:
̶  Eu não tinha pensado sobre isso!

E o rapaz disse a ele:  ̶  Tenha calma,
que o senhor é mais um pobre coitado
que acredita que a copa do mundo
deixou para o Brasil grande legado,
pois deixou-se envolver-se pela mídia
que deixou todo mundo enfeitiçado.

Quando é tempo da tal copa do mundo
a TV cria sensacionalismo,
fala dos jogadores como heróis,
usa o hino em campanhas de civismo,
pra lavar o seu cérebro num oceano
de mentira e falso patriotismo.

Eu ali, escutando essa conversa,
refleti sobre um texto que dizia
que quem ganha só um salário mínimo,
conhecido também por “micharia”,
vai ralar por cinquenta e oito meses
pra ter o que Neimar ganha num dia.
                                   (42.000 ÷ 720)
E na minha cabeça de menino
se passaram milhões de pensamentos.
Desde então eu passei a refletir
sobre os fatos e acontecimentos.
Repensei sobre mídia e futebol,
e criei os meus próprios argumentos.

Na TV eu vi um rapaz chorando
pelo craque maior da seleção,
pela falha de um perna-de-pau,
pelo efeito de uma contusão,
e então vendo o choro eu refleti,
e tirei a seguinte conclusão:

Se o povo continuar chorando
por um time que um jogo perdeu,
esquecendo dos problemas reais,
sem lembrar dos problemas que viveu,
vou pensar: ̶  Ou eu sou um sonhador,
ou então nosso povo emburreceu.