sábado, 25 de agosto de 2012

HISTÓRIA DO RN: JOSÉ TAVARES - PARTE II

VELHO TAVARES - PARTE II - Por Dr. Ciro Tavares

ONOFRE LOPES

As credenciais da velha estima, a fraternal intimidade, o conhecimento do homem no seu valor humano e na sua intensidade de espírito são a chave que esta Academia depôs em minhas mãos para abrir as suas portas na saudação da imortalidade e que hoje se investe o cirurgião, o professor universitário José Tava\res da silva, o meu velho Tavares. Mas será que o José Tavares é um literato? Escreveu livros, fez crítica, ensaios e romances? Onde estão as suas obras? Respondemos: Sim! José Tavares é homem de letras! A sua obra está esculpida em 40 anos de arte. Está gravada nas salas de cirurgia, nas enfermarias, nos lares, no coração e na memória da cidade. Está na ajuda que deu aos colegas, está no ensino que ministrou aos seus alunos, está no exemplo de dignidade profissional, na austeridade e na beleza do gesto que faz da Medicina arte divina. Em tudo se vê uma poesia, um ritmo, uma eloquência. E a sua cultura humanística e a atualidade dos seus conhecimentos científicos? Não é ele um mestre da técnica cirúrgica, no manejo dos métodos terapêuticos e das sutilezas dos movimentos hidrossalinos? Não é ele o conhecedor dos grandes centros cirúrgicos da América e do Velho mundo? Não é ele um cultor da língua que define a nossa raça e fixa as nossas tradições? Não é ele que, sem preocupações literárias, sabe dar beleza e dignidade à linguagem, por seu estilo, fidelidade e clareza? Na época em que vivemos, no império dos números, da massa, da força, da máquina, quando as artes enlouqueceram e o Parnaso morreu, aquele que disciplina emoções e preserva firmeza espiritual é um esteta.nos seus escritos, nos seus discursos, não há parábolas nem alegorias; não há requintes nem retórica; não há vaidades nem esnobismos. Há o exato, o necessário para exprimir a verdade do seu pensamento.na sintática ou na linguagem; n produção literária e nos voos da imaginação, talvez não seja um estilista; mas a conduta do pensamento, a singeleza da forma, o zelo gramatical levam o médico, o cirurgião, o professor catedrático, o homem de cultura às raias de outra missão: um servidor das letras. Os valores humanos se medem pela soma de todas as ações que imprimem no tempo o esforço criador da espécie. As letras são um instrumento a mais da ação do pensamento. Nem sempre a obra da arte da literatura é um livro. Revela-se, também, na coisa criada, pela sua profundidade e conteúdo. Imortalizamos o espírito criador. Fixemos na história a perfeição das coisas que inspiram a beleza da vida. Um bisturi tem também a sua linguagem nobre. Tem arte e ciência, tem sensibilidade e emoção. Faz as mais belas preces e suporta os maiores sacrifícios para acalmar os ventos das ruidosas tempestades da vida.
A Tavares nunca se lhe escasseou a emoção poética, a inspiração artística ou a eloquência para o bem. não escreveu livros, mas espalhou cultura. As vitrines não ostentam volumes seus, mas uma cidade inteira aplaude sua figura humana frente ao templo da imortalidade. O marechal de Saxe e o Duque de Richelieu, os médicos Francisco de Castro e Miguel Couto, na Academia Francesa e na Academia Brasileira, não eram profissionais das letras, mas se imortalizaram na memória do tempo que Molière, Descartes Pascal, Diderot, Balzac não pertenceram às Academias. Nem se tem a esperança de ver repetida a fase áurea da geração de Olavo Bilac, Paula Nei, Arthur de Azevedo, Sílvio Romero, Machado de Assis, Coelho Neto, Joaquim Nabuco, José do Patrocínio. Muito menos a ressurreição da livraria Francisco Alves, da Garnier, da Lapa, da Rua do ouvidor, da Gazeta de Notícias, do jornal do Brasil, das polêmicas e das boêmias. Estamos em face de uma tumultuosa revolução da vida literária, de uma depressão o sentimento literário, como atividade exclusiva. Aqui e em toda parte. Vemos ruínas d velhos tesouros, e ao mesmo tempo experimentamos o sortilégio de um espírito novo, na vertigem dos espaços, desligados do passado e da história. A literatura e as artes, como ornamentos das ideias estão de nova roupagem. Mas, estilo, beleza, fidelidade definem o espírito, o caráter, a origem e o gênio da raça, na marcha do tempo. É preciso manter e avivar a chama do bom gosto, como instrumento de afirmação de um povo. O homem de letras é o guardião, aquele que esculpe e perpetua a vida na sua beleza, na sua eternidade.
Tavares, velho Tavares: A Academia o elegeu. Reconheceu que você fez obra imorredoura e realizou o ideal de cultura do seu tempo. Você fez outra obra literária. Esta é uma festa do espírito. É um reconhecimento. É uma justiça. É um aplauso. Estamos, por isso, de coração aberto, assim alegres e fraternos. Receba desta Casa, que bem soube alargar as portas para recebê-lo. Os que aqui chegam pelo que fizerem, poderão dizer, como Horácio, que não morrerão de todo. Venha, pois, para a imortalidade.